segunda-feira, março 01, 2010

Eleições na Bolívia: o jeito Morales de governar

Depois de chegar à Presidência há quatro anos com o projeto de "refundar" a Bolívia, Evo Morales foi beneficiado na votação deste domingo pelas várias das mudanças que promoveu no país --entre elas a própria instituição da reeleição.

Para analistas, as políticas de Morales tiveram sucesso em abrandar parte dos problemas crônicos de um país em que seis em cada dez cidadãos vivem na pobreza, embora haja também quem considere que parte das mudanças possa institucionalizar as tensões étnicas, sociais e geográficas.

"Evo Morales tem um mandato diferente de qualquer outro presidente do hemisfério, incluindo Barack Obama", disse o analista Jim Shultz do Centro de Democracia, em Cochabamba. "Esta é a quinta eleição nacional em quatro anos, e sua margem de vitória só tem aumentado a cada vez".

Morales usou o aumento dos lucros da indústria de gás natural da Bolívia, que nacionalizou em maio de 2006, para fornecer subsídios extremamente populares para crianças e idosos, bem como um pagamento temporário para as novas mães.

Os preços mais altos do gás natural e minerais, que representam o quase o total das exportações da Bolívia, ajudaram a economia do país crescer 6% por cento no ano passado. O FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta um crescimento de 2,8% em 2009, que seria o maior da América Latina.

O governo argumenta que o número de pobres está caindo e os subsídios têm estimulado o crescimento econômico durante o período de crise econômica global, especialmente devido ao crescimento do mercado interno.

Mesmo no núcleo do poder governista, a vitória do partido de Morales não deve significar tranquilidade, diz Mirtenbaum, devido à necessidade de canalização das persistentes divisões étnicas, sociais, regionais e econômicas e aos projetos pessoais e planos de poder de correntes dentro do MAS (Movimento ao Socialismo), que reúne grupos com interesses e aspirações distintas e às vezes contraditórias, como cocaleros, pensionistas, funcionários públicos, sindicalistas e pequenos agricultores.

"Vai haver uma luta de poder lá dentro, pelo caráter da hegemonia e pelo caráter da distribuição, ou da falta de distribuição, de poder que vai se manifestar pelo intento de centralizar o poder e isso obviamente vai gerar diferentes tipos de tensão dentro do MAS", diz Mirtenbaum.

O sociólogo diz não acreditar na promessa de Morales de não concorrer a uma nova reeleição, o que poderia se chocar com projetos daqueles que se preparam para sucedê-lo, o que pode ser o caso do vice-presidente, Alvaro Garcia Linera.

Todas essas linhas de tensão são amortizadas atualmente pelo relativo clima de prosperidade econômica no país. Os "bônus" que o governo distribui, os altos preços das commodities, com a receita administrada em grande parte pelo Estado, e a ajuda da Venezuela contribuíram para o crescimento do mercado interno e a distribuição de renda.


fonte: Folha Online
por Nayara Andrade

Nenhum comentário:

Postar um comentário